Costumes e Lendas – História de Botija

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Estávamos reunidos na sala de minha residência quando minha mãe resolveu tocar num assunto que me fez despertar o interesse de transformar em uma matéria para o blog. Trata-se de algo que eu não conhecia e acredito ser da época de meu trisavô: uma história de botija, um tesouro que era enterrado em vaso, garrafa ou em um saco de tecido. Vou comentar aqui da forma como minha mãe nos transmitiu.

 

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Nos tempos bem antigos, ainda quando não existiam os bancos, era muito comum os grandes agricultores, fazendeiros, coronéis e comerciantes enterrarem suas riquezas em casa ou nas matas para evitar que fossem vítimas de ladrões, bandoleiros ou outros tipos de criminosos. Geralmente essas riquezas eram convertidas em moedas de ouro ou prata e enterrados por segurança.
Um grande problema é que na maioria das vezes as pessoas que enterravam esses tesouros nem sempre o faziam na presença de outros, nem mesmo de familiares, e muitas vezes o faziam em segredo. Assim, quando vinham a falecer por alguma circunstância natural ou motivo de força maior, seria muito difícil ou até impossível alguém encontrar tal tesouro.

 

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Devido à preocupação egoísta e gananciosa por causa das riquezas deixadas enterradas aqui na terra, o espírito do falecido passava a viver perturbado no além. E para que não continuasse vivendo qual alma penada, ele aparecia em sonhos, ou até mesmo de forma materializada, a alguém, uma pessoa escolhida, implorando que a mesma desenterrasse o tesouro que ele havia enterrado enquanto ainda vivia. Ele indicava o local exato, e o  tesouro passaria a ser da pessoa escolhida.

 

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Essa caça ao tesouro passaria a ser uma grande aventura para a pessoa escolhida, pois, algumas regras eram passadas pelo espírito e a pessoa tinha que seguir à risca, ou, do contrário, tudo daria errado. Nessa aventura, em caso de quebra das regras, a pessoa poderia ser defrontada por outros espíritos e ainda se deparar com formigueiros, escorpiões, caranguejeiras e emboscadas.

 

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Dentre as regras a serem seguidas pelo indicado, estavam as seguintes: não contar nada a ninguém. Caso isso acontecesse, o tesouro sumiria do local indicado; só poderia levar alguém consigo, se a alma o permitisse fazer; se fosse permitido levar alguém, o acompanhante não poderia pegar a botija, pois ela se tornaria vazia ou cheia de surpresas desagradáveis, tipo folhas secas, areia ou insetos; a busca pela botija enterrada deveria iniciar à meia-noite, mas nunca em outro horário; a caminhada até à botija deveria ser precedida fazendo o “Sinal da Cruz” e rezas do “Pai-Nosso e Ave Maria” que se estenderiam durante todo o percurso até o local da botija enterrada. 

 

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Evitar comportamentos egoístas e gananciosos ao procurar a botija, era a melhor forma de se evitar o terror nas diversas visões macabras que aconteciam durante a jornada. Era até mesmo possível alguém desistir da busca por causa do terrível medo que poderia o assolar. Era preciso ter muita coragem para resistir a tudo isso, pois as visões aterrorizantes eram inevitáveis.
E quando o escolhido não conseguia cumprir a missão, passaria a esquecer tudo, nada mais lembraria sobre o que aconteceu e nem sequer lembraria mais da botija. Então a alma penada escolheria outra pessoa para continuar a missão. E aquele que cumprisse totalmente a missão, seria o herdeiro do tesouro, ao passo que, o espírito do falecido finalmente descansaria em paz.

 

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Bem sabemos que tudo isso não passa de “história de Trancoso”, conto dos povos antigos. Os nossos avós e pais cresceram ouvindo esses mitos, repassando-os até nós, mas sabemos que tudo isso apenas fez parte da cultura de sua época, muito rica em demasiadas histórias, diversificadas ou absurdas.

 

 

19 comentários em “Costumes e Lendas – História de Botija

  1. Kkkk
    Legal! Muito bom!
    Gostei da sua “história de Trancoso”, e por falar em “Trancoso”???
    Lembrei da minha saudosa avó!
    Bjsss 💋💋💋

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  2. Gostaria de compartilhar uma história: creio que meu avô encontrou uma botija… Moro no interior do Ceará e meus avós moravam na zona rural de minha cidade (que já é pequena). Quando eu era pequeno nós íamos passar o final de semana no sítio dos meus avós. Até aí nada demais. Depois de grande ouvi essa história da botija e resolvi investigar. Não é possível confirmar mas descobri umas coisas interessantes: minha mãe e tios falavam que quando eram crianças eram muito pobres, viviam em uma casa de taipa com chão de terra batida. Os homens passavam o dia no roçado ou caçando e as mulheres passavam o dia fazendo chapéu de palha para vender e comprar o essencial. Assim era a vida. Entretanto, de repente eles melhoraram de vida, meu vô construiu uma casa bem maior de tijolo cru, comprou terras e inclusive colocou um pequeno comércio (conhecida como bodega). Quando eu era criança tinha um quarto na casa dele que todos eram proibidos de entrar, uma vez quase apanhei pq eu tava na porta desse quarto que estava destrancada nesse dia. Achava estranho mas nunca questionei. E o principal, dizem que quem encontra uma botija tem muito azar e morre na miséria, bem, meu vô praticamente perdeu tudo. Minha vó faleceu cedo, meu vô deixou de falar com muitos dos meus tios que se mudaram pra outras cidades. Se distanciou de todo mundo e por muito tempo viveu só e isolado, minha mãe era uma das poucas filhas que tinha contato com ele e só por insistência dela porque ele não fazia questão. Então é isso, não posso confirmar mas juntando os pontos faz muito sentido. Vocês que moram em cidades grandes nao menosprezam as lendas. Eu mesmo já vi crianças doentes se curando quase que instantaneamente quando levadas em rezadeiras idosas, entre outras coisas, o famoso quebranto. Essas lendas são bem interessantes…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Daniel!
      Achei bem interessante a sua história. Assim como você viveu sua infância e presenciou muitas coisas intrigantes relacionadas às botijas, também já escutei muito de meus antepassados sobre essas lendas, as quais eu respeito muito.
      Obrigado por sua participação que muito valorizou e enricou minha matéria!
      Um abraço.

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